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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

aberto fechado: caixa e livro na arte brasileira


A Pinacoteca do Estado de São Paulo apresenta a exposição "aberto fechado: caixa e livro na arte brasileira", com cerca de 90 obras realizadas pelos artistas Amelia Toledo, Anna Bella Geiger, Anna Maria Maiolino, Antonio Dias, Artur Barrio, Cildo Meireles, Ferreira Gullar, Hélio Oiticica, Jac Leirner, Luciano Figueiredo, Lygia Clark, Lygia Pape, Mira Schendel, Paula Gaitán, Raymundo Collares, Regina Silveira, Regina Vater, Ricardo Basbaum, Rubens Gerchman, Sérgio Camargo, Tunga, Waltercio Caldas e Willys de Castro. Entre as obras selecionadas para a exposição estão sete obras dos anos 1950, 19 dos anos 1960, 30 dos anos 1970, duas da década de 1980, oito, três e uma dos anos 1990, 2000 e 2010, respectivamente.  

Em sua primeira empreitada curatorial para um museu brasileiro, o crítico de arte e curador britânico Guy Brett propõe uma análise sobre um fenômeno comum na arte brasileira: o uso da forma-caixa e da forma-livro nas obras de artistas brasileiros a partir da segunda metade do século XX. Por que, em uma época em que os artistas estavam preocupados em tirar a arte das galerias e dos museus e lançá-la “à vida real”, eles se interessaram por esses veículos restritos, fechados e que fortemente remetem às bibliotecas a aos arquivos? “Acredito que essa pergunta, escreve Brett, seja a chave para entender as experiências e os insights únicos que a vanguarda brasileira tem a oferecer”. Para Frederico Morais, critico de arte, “as duas formas de arte tiveram seu primeiro impulso entre os últimos anos da década de 1950 e a primeira metade da década de 1960, influenciadas pelo neoconcretismo. Com efeito, a ousadia criativa dos neoconcretos, aliada à elaboração de conceitos teóricos inovadores, como o de não-objeto, formulado por Ferreira Gullar, construiu uma base sólida para os novos experimentos formais. Esses conceitos foram vitais: a obra de arte como um “organismo vivo” e a participação ativa do espectador”.

Pinacoteca do Estado de São Paulo
Praça da Luz, 2 São Paulo, SP 
De 20 de outubro de 2012 a 13 de janeiro 2013
www.pinacoteca.org.br 

Cildo Meireles, Estojo de geometria, 1977

 Antonio Dias, Solitário, 1979

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Exposição do Grupo Rosa dos Ventos








A exposição “+papel”, coletiva das artistas do Grupo Rosa dos Ventos (UDESC/CNPq), apresenta uma reflexão acerca da materialidade do papel como veículo poético. Buscando dar forma a memórias e relações com esse material, as artistas exploram desde as mais íntimas e delicadas lembranças até relações com o outro e com a paisagem.

Algumas artistas exploram a materialidade do papel dobrando-o, empilhando-o e montando jogos por meio do recorte de letras. Por intermédio desses arranjos, criam mundos imaginários em mini-instalações, celebram os encontros, usam a metáfora do empilhamento como forma de compreender o adensamento de memórias causado pela passagem do tempo, e ainda remetem-nos a experiências lúdicas envolvendo o papel. A ideia de perda e recuperação da memória também está implícita na tentativa de fixar uma imagem em papel por intermédio do ato fotográfico. Alguns trabalhos evocam relações com a paisagem, como as gravuras em papel que são apresentadas junto a conchas coletadas num passeio pela praia.

Juliana Crispe convidou a amiga Bruna Mansani para brincar. “Um mundo de papel para Alice” mostra a personagem, pequena boneca de pano, de 1,5 cm, que dá nome à série iniciada em 2007, interagindo com pequenos animais, objetos em origami, produzidos por Bruna, na proporção da personagem. É a primeira vez que Alice, antes protegida por fotografias, aparece em cena.

Juliana Crispe, Um mundo de papel para Alice, 2009-2011
Instalação, origamis e Alice


O lúdico e o encontro se manifestam também nos trabalhos de Maria Araujo e de Rosana Bortolin. A partir de saquinhos de chá saboreados em um encontro entre amigas, Maria Araujo se lança ao jogo da conversa, da oferenda, do pottlach, devolvendo os restos do ritual, os saquinhos já utilizados, com marcas do uso e tingimento com pigmentos naturais e industrializados.

Maria Araujo, Casal, 2010
saquinhos de chá tingidos


“Papel de papel I e II”, de Rosana Bortolin, propõem uma alusão aos contatos lúdicos feitos com papel durante a remota infância. Recorte de letras, formação de palavras, empilhamento de papéis, criação de volumes. Folhas empilhadas, letras recortadas que unidas e ordenadas formam a palavra papel. O negativo do recorte e o positivo do recortado ao complementarem-se formam uma folha inteira. Segundo a artista, “é uma metalinguagem que define o conceito do objeto por meio do material do qual ele é feito”. O visitante poderá retirar esses recortes e levar consigo para montar e remontar.

Rosana Bortolin, Papel de papel I, Papel de papel II, 2009-2011
pilhas de letras de papel formando a palavra papel

“Sementeira”, obra de Sandra Correia Favero, segue outra linha. Considerando as inúmeras possibilidades de reprodução de imagens, a artista expõe a disseminação da estampa resultante de um processo secular sujeito ao abandono dentro de uma caixa forrada com conchas e caramujos. Sandra explica: “porque vivo em Sambaqui, sei o quanto estamos tentados a levar para casa essas pequenas “lembranças”. Sei o valor afetivo que elas incitam. As estampas estão colocadas ali como oferenda ao público e como estímulo a multiplicação do ato de gravar.”

Sandra Correia Favero, Sementeira, 2005
instalação com caixa de vidro, conchas e caramujos, cascas de ostras e mariscos,
estampas impressas a partir de matriz xilográfica


A memória é tema ainda dos trabalhos de Márcia Sousa e Marina Moros. “palimpsesto 1 [Helena]”, de Márcia Sousa, incita o espectador ao tato, à experiência do empilhamento de memórias e à sua recriação, originada no próprio gesto de empilhar. Um palimpsesto é uma página manuscrita, pergaminho ou livro cujo conteúdo foi apagado (mediante lavagem ou raspagem) e reescrito, normalmente nas linhas intermediárias ao primeiro texto ou em sentido transversal. Como num palimpsesto, a memória reescreve constantemente os fatos vividos. Camadas de espaços-tempo que se interpenetram e se transformam mutuamente. Por entre as linhas dessa escrita sempre transformada, é possível entrever as camadas inferiores, indícios do vivido. O trabalho de Márcia presentifica essa sobreposição, esse adensamento de memórias. O ato de empilhar reafirma a ideia de acúmulo e de entrelaçamento entre camadas. A transparência dos papéis permite a contaminação entre palavras, entre lembranças, entre tempos, entre espaços. Sob a escrita revelam-se outras escritas. O visitante poderá mover as folhas para desvendar o trabalho e experimentar a sensação de adensamento provocada pela ação de empilhar.

Márcia Sousa, palimpsesto 1 [Helena], 2009-2011
papéis transparentes empilhados, escrita em nanquim

Marina Moros joga com a etimologia das palavras “retrato” e “res”, para discutir, na obra “[restraho]”, o intervalo em que a imagem vira tangência nas armadilhas criadas pela fotografia pixográfica, onde a latência é substituída por jatos.

Marina Moros, [restraho], 2009-2011
fotografia, adesivo em vinil sobre parede, texto

Em “ser (des)contínuo”, Silvia Carvalho mostra uma série de quinze desenhos-pinturas feitos com bastões oleosos e tinta de terra sobre papel. São figuras femininas criadas a partir de leitura do livro "O Erotismo" de Georges Bataille.

Silvia Carvalho, ser (des)contínuo, 2009
desenhos sobre papel, instalados em sequência

A exposição “+papel”, do Grupo Rosa dos Ventos, pode ser visitada até o dia 6 de fevereiro.


Serviço

Exposição “+papel”

Museu Histórico de Santa Catarina, Palácio Cruz e Sousa
Praça XV de Novembro, 227. Centro. Florianópolis, SC.
Tel: (48) 3028.8091; e-mail: mhsc@fcc.sc.gov.br;
www.mhsc.sc.gov.br
Visitação: 14 de janeiro a 6 de fevereiro de 2011; terça a sexta-feira, 10 às 18h; sábado e domingo, 10 às 16h.